terça-feira, 10 de novembro de 2009

A porta da Beleza e a Estética Teológica


Hans Urs von Balthasar dá tanta importância à Beleza que dedica grande parte de suas obras (sete volumes) a tratar deste assunto. Aqui procuraremos mostrar os pontos principais ressaltados por Balthasar, São Tomás de Aquino e Santo Agostinho a respeito da beleza apresentados nos capítulos segundo e quinto do Livro “A porta da Beleza” do pensador Bruno Forte. As reflexões partirão de perguntas como: O que é a Beleza? Como encontrá-la? Qual seu fundamento? Qual sua relação com o Uno e com a Verdade?
Ao analisá-las nos teremos como pressuposto fundamental a Beleza enquanto expressão pelan manifestado no  evento da Encarnação do Verbo.

O tema da beleza foi discutido desde os primeiros séculos da Igreja. Santo Agostinho, ao se tratar de uma Beleza interna (relativo àquilo que é próprio da alma) e externa (relativo àquilo que é próprio dos sentidos), podemos nos remeter à sua metafísica da interioridade: “Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova! Tu estavas dentro de mim e eu te buscava fora. Como um animal buscava as coisas belas que tu criaste. Mantinham-me atado, longe de ti, essas coisas que, se não fossem sustentadas por ti, deixariam de ser. Brilhaste e resplandeceste diante de mim, e expulsaste dos meus olhos a cegueira. Exalaste o teu Espírito e aspirei o seu perfume, e desejei-te. Saboreei-te, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e abrasei-me na tua paz” . Diante da busca pela Verdade (Belo) o homem faz um exercício que exige disciplina e discernimento de um retorno-reflexão para dentro de si mesmo, pois é ali que Deus habita e não ‘fora’.

Somos todos atraídos pelo Belo. A harmonia que emana dele harmoniza a multiplicidade com o uno. A beleza é o lugar da reunião do múltiplo no todo. Por isso dizemos que quanto mais próximo do UNO mais o MÚLTIPLO fica belo. A partir disso olhamos o Todo a partir de Cristo, “o mais belo entre os filhos dos homens” (Sl 44, 3), com sua kenosis, na Encarnação – manifestação visível da Beleza (Doxologia = Glorificação) do Pai para todos aqueles que tiveram a graça de ver e ouvir suas palavras libertadoras – desse modo é que podemos falar de uma beleza kenótica em Santo Tomás.

Para compreendermos bem o pensamento deste autor precisamos ter em mente que ele não toma como referência qualquer coisa na realidade ou parte da percepção subjetiva de cada pessoa, mas propõe uma reflexão que parta de Cristo, pois segundo ele é na Encarnação que temos a Plenitude da Revelação e a manifestação da Beleza por excelência.

O Filho de Deus é reconhecido como o Belo por manifestar os três requisitos da beleza segundo Santo Tomás. Primeiramente a integridade, ou seja, a beleza é a forma do Todo – mostra a integridade das partes. As partes sempre devem fazer menção ao Todo, todavia o Todo não pode ser a soma das partes, pois se assim o fosse teríamos um panteísmo, haja vista que “Deus transcende a toda criatura e está presente nela. Ele é infinitamente maior do que todas as suas obras: sua majestade é mais alta do que os céus (Sl 8,2), é incalculável a sua grandeza (Sl 145,3)” . O Verbo possui uma natureza comum às pessoas da Trindade. Outro ponto é a proporção, isto é, o todo está presente nas partes, sem deixar de ter relação com o Todo. O Filho é o ícone do Pai – o Todo de Deus está no Filho. Por fim temos o esplendor que quer dizer a comunicação da totalidade. O esplendor se auto-comunica. Cristo é o reflexo do Pai.

Tomás de Aquino coloca o Belo na sua dialética entre a forma e o esplendor. A forma, influenciada pelos gregos tem um caráter de semelhança do fragmento com o Todo. Isto manifesta um caráter objetivo da beleza. O esplendor é esta participação na manifestação da beleza. Estas duas realidades apresentadas devem agir sempre juntas, caso contrário, caímos num puro materialismo ou transcendentalismo. Para não correr o risco dos extremos o Aquinate apresenta a analogia. Da Beleza revelada podemos participar gradualmente. Porém, permanece uma distância que é indizível.

Balthasar trata da Beleza num âmbito cristocêntrico. Ela é vista como o Todo no fragmento. Melhor dizendo, o Todo de Deus manifestado em Cristo. A beleza é a única forma de recuperarmos a Verdade e o Bem, pois, a ela dá autoridade e atratividade. A estética é um evento para glorificação do Deus que se auto-comunica.

É a partir da afirmação de que o belo é a forma do esplendor, o Teólogo suíço tratará a dialética do belo. Possui duas características: a) objetividade (forma) – está relacionado à Revelação = Encarnação, isto é, a atividade é do ‘objeto’ [Deus]. A iniciativa é de Deus, Ele se mostra a nós; b) subjetividade (esplendor) – contemplação, em outras palavras, trata-se de uma passividade do sujeito [Homem], pois diante da Beleza de Deus ficamos na percepção, no ‘deixar-nos encher de sua glória e esplendor’, não estamos para entender, mas para acolher simplesmente. A atitude do homem é de admiração, espanto (surpresa), encanto. Ele se Revela, nós contemplamos.

Assim vemos que a Estética Teológica de Balthasar aborda o tema da Beleza a partir do método e conteúdo da teologia. Dessa forma, contrapõe a Teologia da Estética que subordina o dado teológico ao método puramente filosófico.

A chave interpretativa do momento estético não é aqui apenas o abismo que atrai a indescritível ulterioridade ou transcendência misteriosa e escondida que chama, mas um momento de alteridade da beleza que se manifesta aos olhos do homem. Aqui a beleza vem se expressar num fragmento: aqui ela se esconde sub contraria specie no rosto Daquele perante o qual nós cobrimos o resto, e que, no entanto, como já foi dito, é o rosto do mais belo dos filhos dos homens. Esta é a via da meditação sobre a beleza construída a partir da contemplação do Filho de Deus, revelado e escondido na carne.

Com relação à beleza, um pensador que contradiz o pensamento de von Balthasar é David Hume, um dos mais famosos empiristas ingleses. Em sua filosofia Hume coloca como crivo para a verdade e para a importância de uma ideia as sensações, isto é, quanto mais sensível mais verdadeiro. Sua moral também gira em torno das sensações empíricas, assim o que atrai o homem é o que sensivelmente lhe causa gozo. O belo para Hume seria apenas o que apetece sensivelmente ao ser humano. Esta teoria fecha todas as portas para a transcendência tão citada em Balthasar.

Por fim podemos concluir juntamente com o pensamento de Balthasar é que a Beleza é o esplendor da forma e sua perfeição se dá no evento da encarnação do Verbo, onde o Todo se manifesta no fragmento. Encher-se da Glória e Beleza de Deus é mais um desafio para aqueles que desejam ser cristãos. “Deus criou o homem para a imortalidade e o fez à imagem de sua própria natureza (Sb 2, 23)”, isto é, ser cristão é também resplandecer (ser reflexo) a Glória de Deus (seus atributos), essencialmente manifestando o amor entre nós: pois só seremos reconhecidos como sendo verdadeiros discípulos de Jesus, se amarmo-nos uns aos outros, como Ele nos amou (Jo 13, 34-36).

Ir. Thiago Cristino, FMI - Pavonianos
Estudante do Curso de Teologia
- Seminário Maior Arquidiocesano de Brasília -

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